Promessa não cumprida


Alysson Lisboa Neves

Especial para o Estado de Minas

Kindle chega com proposta arrojada, mas falha em questões simples, como conexão, poucos recursos visuais e dificuldade no manuseio

Existe algo mais prático do que um livro? Sem cabos, você o guarda onde quiser, marca onde parou de ler, faz anotações e o leva para todo lugar. Pode também compartilhá-lo e trocá-lo no sebo. O Kindle, leitor eletrônico de livros comercializado pela Amazon. em escala mundial, prometia ser ainda mais fácil, simples, usual e contar com inúmeras vantagens frente ao livro de papel. Mas não é bem assim.

O Informática testou o Kindle Wireless de seis polegadas, modelo comercializado desde o dia 19 no site da Amazon e que oferecia praticidade e uma conexão direta em mais de 100 países por meio de sua rede Whispernet. Enquanto esta matéria era produzida, o aparelho tentava, sem sucesso, sincronizar e atualizar as páginas dos jornais e revistas baixados no endereço da Amazon. Uma mensagem insistente aparecia: “Your Kindle is unable to connect at this time. Please, try again later” (Seu Kindle não consegue fazer a conexão agora. Por favor, tente mais tarde). Em contato com a Amazon, via e-mail, a empresa prontamente respondeu que bastava reiniciar o aparelho e tudo funcionaria perfeitamente. Ledo engano. A conexão falhou novamente e permaneceu assim durante dois dias.
Mais problemas – O aparelho tem um minúsculo teclado Qwerty com 45 teclas, além de nove botões que comandam todas as funções numa tela de 9cm x 12cm. São dois alto-falantes e uma tecla para controlar o volume, muitos botões e uma navegação confusa. A sensação que se tem ao manusear o Kindle é de uma repleta falta de controle sobre ele. Dominar todas as funcionalidades do leitor eletrônico é algo difícil e requer uma boa dose de paciência do usuário.

Para testar a leitura de arquivos, enviamos uma página do caderno Pensar, do Estado de Minas, em formato PDF, para o Kindle e o que recebemos foi algo bastante bizarro: um arquivo com textos embolados, frases com palavras coladas que não seguem uma sequência lógica. Todos os elementos gráficos – legendas, créditos das fotos, títulos, subtítulos e tudo mais que se viu pela frente – se misturam. O leitor fica perdido, sem saber onde termina o assunto ou começa outro. Não há uma hierarquia das matérias e a diagramação é confusa. Definitivamente, não é possível inserir no Kindle uma página que foi desenhada para ser impressa.

Existe uma grande diferença entre o layout de um jornal em papel e sua versão Kindle. Um periódico no suporte eletrônico conta com poucos recursos visuais, como olhos gráficos ou intertítulos destacados. Algumas poucas fotos em preto e branco aparecem ao longo da edição, mas é só isso. Um fio separa uma matéria da outra e o título ganha algum destaque. Outro exemplo é a revista semanal norte-americana Newsweek, dividida em seções em que o usuário pode escolher qual artigo ou assunto deseja ler. Mas o que torna a leitura cansativa é a falta de recursos visuais.

Para melhorar a eficiência do leitor eletrônico, a Amazon terá um árduo caminho pela frente. Os leitores de livros digitais ainda precisam encontrar o modelo perfeito, que não transforme o passeio literário virtual em uma história dramática. Incluir muitas funções em um e-book pode transformá-lo em um computador portátil – e essa não é a função de um leitor de livros.

Outro problema observado é a dificuldade em percorrer capítulos, folhear páginas e escolher uma específica, tão simples nos livros convencionais. O Kindle não permite que você tenha real dimensão de uma obra no papel. Passear de maneira rápida por toda a publicação, a fim de encontrar uma parte qualquer, requerer muito esforço e paciência do usuário. Na função text-to-speech (leitura em voz alta), o usuário pode escolher a velocidade da leitura e ainda, se preferir, entre uma voz feminina ou masculina para narrar. Porém, esse recurso só serve para os textos em inglês e seria ótimo para um deficiente visual. Testamos a função em um texto em português, mas a experiência foi, no mínimo, curiosa e divertida: o locutor lê o texto como se estivesse narrando em inglês, ou seja, o que o usuário ouve é um norte-americano tentando desesperadamente falar o português.

Pontos fortes – Além de sua capacidade de armazenar mais de 1,5 mil exemplares na memória e acesso direto a uma livraria virtual, o Kindle conta com um acervo de mais de 350 mil publicações, claro que a grande maioria no idioma inglês. Se você perdê-lo, todos os livros adquiridos na loja do Kindle podem ser resgatados e copiados para um novo aparelho, sem custo. A tecnologia da tinta eletrônica (e-ink) dá a sensação real de que estamos lendo um livro em papel. Desenvolvida pela Amazon, a tinta torna a leitura muito confortável, completamente diferente da leitura em uma tela de computador. São 16 tonalidades de cinza, que fazem do Kindle o diferencial frente a outros concorrentes.

Se você gosta de ouvir música enquanto lê, basta copiar suas canções preferidas no formato MP3 para a pasta music do Kindle e começar a escutar. O aparelho também envia para você um trecho de qualquer livro de seu acervo, para uma degustação, antes de você comprar o exemplar, que custa em média US$ 9, o equivalente a cerca de R$ 16.

Apenas um leitor de livros

Num mercado em largo crescimento, a corrida pelo melhor leitor de livros digital já começou há alguns anos. A Amazon lançou a primeira versão do Kindle em 2007, e outra gigante norte-americana, a Barnes & Noble, a maior livraria física dos Estados Unidos, anunciou o lançamento para esta semana de seu leitor eletrônico, o Nook. O aparelho terá o mesmo preço do Kindle, além de uma tela touch screen colorida.

Mesmo anunciando que o Kindle é mais que um leitor de livros, porque permite a visualização de blogs – ainda não disponível no Brasil –, revistas e jornais, o produto não foi desenvolvido para isso. Alguns periódicos já estão vendendo assinaturas de sua versão digital pelo site da Amazon, mas o resultado, pelo menos por enquanto, não é nada satisfatório. O jornal na versão Kindle tem visual pouco atraente e recursos, como os infográficos, simplesmente não existem. Não se pode ainda manusear com facilidade.

Todos os jornais e revistas podem ser degustados por 14 dias sem custo. Se não cancelar a assinatura, o usuário começa a pagá-la automaticamente. Todo cliente Kindle deve ter um cartão de crédito vinculado à sua conta. A assinatura do jornal no Kindle custa em média US$ 16 (o equivalente a cerca de R$ 28). Você ainda pode comprar edições avulsas a US$ 1.

DICA
pouquíssimas publicações em português na loja do Kindle, mas há livros nobres, como Dom Casmurro e Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, a US$ 3 (o correspondente a cerca de R$ 5). Seria uma pechincha, se não fosse gratuito baixar na biblioteca digital, acessível no www.dominiopublico.gov, além das obras completas de Machado de Assis, poesias de Fernando Pessoa, obras de Joaquim Nabuco e tantas outras. Algumas publicações você consegue de graça e pode copiar para o seu Kindle, sem custo algum.

Matéria publicada no Jornal Estado de Minas – Belo Horizonte – MG – Brasil – dia 29/10/2009

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