Um brasileiro na alta roda


Nelson Alves Jr./Divulgação

Entrevista/Vítor Lourenço

Alysson Lisboa Neves
Entrevista publicada no caderno de Informatica do Jornal Estado de Minas

Vítor Lourenço é o único brasileiro entre os 50 funcionários que trabalham atualmente no Twitter, microblog que comporta até 140 caracteres e é um dos maiores sucessos da internet atualmente. O escritório da empresa fica em São Francisco, no Vale do Silício, Califórnia, um dos mais importantes polos tecnológicos do mundo. Você deve estar imaginando que estou falando de um nerd de meia-idade de cabelos grisalhos, de fisionomia estressada. Nada disso! Paulista de Campinas, Vítor tem apenas 21 anos e já é um webdesigner respeitado tanto no Brasil quanto no exterior. Autodidata, começou a trabalhar aos 14 anos e, antes de ser convidado a integrar a equipe do Twitter, trabalhou no Yahoo, um dos sites mais visitados do mundo, foi designer de interação da Globo.com e consultor em diversas empresas norte-americanas. Em entrevista ao caderno Informátic@, ele mostrou pontos de vista de quem sabe o que está dizendo.

Como você chegou ao Twitter?
Recebi o contato de Evan Williams, cofundador do Twitter. Depois de ele ter visitado um software que desenvolvi, chamado FoodFeed http://www.foodfeed.us, e ter se interessado pelo conceito da aplicação. Além disso, Williams conheceu meu trabalho disponível no portfólio on-line http://www.vlourenco.com. A partir daí, fechamos um contrato de trabalho a distância e posteriormente fui a São Francisco para acompanhar a fase final do projeto de reformulação do Twitter, em setembro do ano passado. Fizemos os últimos ajustes e acompanhei um pouco do trabalho dos engenheiros que tornam tudo funcional. Hoje, morando nos Estados Unidos, tenho contato diário com os fundadores do Twitter. Em pouco mais de três anos, o microblog teve um crescimento jamais visto anteriormente na web. O escritório do Twitter tem uma arquitetura sensacional e uma atmosfera muito inspiradora. É construído por profissionais extremamente apaixonados e motivados, muitos deles com passagens por empresas como Google e Apple.

O Twitter passou por uma remodelagem e foi retirada a frase: What are you doing now da página principal. Por quê?
A frase está presente ainda na página logada. Retiramos apenas da página inicial, onde estamos explorando alguns novos conceitos sobre o que significa o Twitter, voltados agora para o fato de você poder acompanhar o que está ocorrendo neste exato minuto ao redor do mundo. Além disso, estamos colocando um foco maior nos tópicos mais comentados no momento e em nosso serviço de busca em tempo real.

Recentemente, a Microsoft fez uma parceria com o Yahoo. Em um mercado tão competitivo, esse é o único caminho? O Twitter planeja sua expansão para prover outros serviços para a web?
Existem diversos caminhos. Fazer parcerias com outras grandes empresas é um deles. Estamos constantemente pensando em novas formas de expandir, mas sempre focando nossos esforços em soluções criativas e inovadoras.

A internet não se vale exatamente por sua diversidade e infinidade de ferramentas com propósitos semelhantes? As fusões entre empresas de tecnologia não estão pasteurizando a web?
Acredito que não. Em alguns casos, fusões têm objetivo claro de gerar uma concorrência equivalente. A fusão dos sistemas de busca da Microsoft e do Yahoo trará grandes benefícios para a web como um todo, uma vez que veremos inovações por parte da Microsoft. O Google, para não ficar atrás, vai aprimorar seu produto da mesma maneira.

Você acha que a internet, no futuro, será dividida entre paga e aberta, como ocorreu com a TV?
Não acredito que teremos um canal “separado”, como ocorre com a TV a cabo. A internet se beneficia por ser um ecossistema único, a plataforma singular de comunicação que possibilita a qualquer pessoa se tornar um comunicador em poucos instantes. Dividir essa plataforma em duas, com certeza, iria diminuir seu impacto e possibilidades de integração. Contudo, ambientes pagos podem conviver em perfeita harmonia dentro da mesma plataforma, como acontece hoje.

“Estamos sempre pensando em novas formas de expandir, mas focando esforços em soluções criativas e inovadoras”

Todos concordamos que o Twitter é um comunicador instantâneo muito eficaz para a troca de informações, mas você acha que as pessoas querem interagir o tempo todo? Às vezes, não queremos ser apenas agentes passivos no processo comunicacional?
Muitos usuários do Twitter utilizam o serviço apenas para consumir e receber informações: notícias de seu time de futebol, acontecimentos em sua cidade, informações de entretenimento, acompanhar as celebridades ou empresas favoritas. O interessante é que a plataforma permite que todos interajam com o conteúdo em tempo real, mas apenas se se sentirem confortáveis com isso.

Você não considera o Twitter uma rede social. Não existe interação entre usuários? Você pode criar uma rede privada dentro do Twitter e utilizá-la como tal?
Não gosto de definir o Twitter como rede social. Você pode fazer um uso social, comunicando-se com pessoas de sua rede, mas esta é apenas uma possibilidade. Além disso, é possível escolher receber atualizações de pessoas ou empresas que você admira e diversas outros canais que não fazem parte de seu círculo social.

A web 2.0 que conhecemos hoje é voltada para o compartilhamento de conteúdo e interação entre usuários. Você não acha que o Twitter perde um pouco a função quando atuamos apenas como observadores? Afinal, é uma rede que cresce em número de usuários, mas não em interações e trocas de informação. Existe o risco de o Twitter ser esquecido, como ocorreu com alguns serviços na web?
Com o tempo, mais pessoas passarão a se sentir confortáveis em compartilhar informações on-line. Essa é uma tendência natural na web, e talvez o Twitter não tivesse dado certo se fosse lançado em um momento anterior na internet. Hoje, é perfeitamente natural que apenas algumas pessoas compartilhem informações e a maioria delas esteja apenas consumindo informação. Sabendo disso, oferecemos serviços como a busca em tempo real e os tópicos mais comentados no momento. Acredito que o nível de engajamento dos usuários no Twitter seja muito maior hoje em dia.

O mercado editorial, audiovisual e fonográfico vive seu pior momento. Apesar de iniciativas como o Creative Commons e o Copy Left, que tentam regulamentar, de alguma forma, a distribuição de conteúdo na rede, escritores como Andrew Kenn, autor de Culto ao amador, preveem um fim melancólico para a indústria cultural de forma geral. Como você vê essa previsão apocalíptica? A distribuição livre de conteúdo é um caminho sem volta?
Minha visão é de que os criadores de conteúdo podem continuar se sustentando a partir de suas obras, entretanto, cada vez mais, novos modelos criativos terão de ser adotados, justamente para comportar a grande facilidade de distribuição global das informações hoje em dia. Acredito que alguns modelos livres possam trazer retorno suficiente para isso, como determinadas bandas que lançam músicas gratuitas, mas obtêm retorno fazendo shows ao redor do mundo, ou artigos que são distribuídos livremente, mas conseguem um retorno significativo em publicidade.

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