A reinvenção da universidade


A reinvenção da universidade
Matéria da Revista Galileu – Fevereiro 2010

2020 é o ano em que a universidade vai morrer. Nessa data, salas de aulas com alunos caindo de sono diante de um professor escrevendo uma avalanche de fórmulas no quadro-negro estarão extintas. Em vez disso, os estudantes vão baixar em seus notebooks o conteúdo dos cursos do MIT (Massachusetts Institute of Technology), estudar virtualmente com especialistas da Universidade de Harvard e aprender com um game online. E se você está achando isso tudo absurdo, saiba que essas coisas já existem. E têm tudo para se tornar cada vez mais comuns a partir de agora.

A data é um palpite de David Wiley, professor de tecnologia da Universidade Birgham Young, nos EUA. “Se a universidade não inovar e se adaptar ao mundo ao seu redor, ela será irrelevante em dez anos”, diz. Desde os primeiros dias da internet, Wiley pesquisa novas ferramentas educacionais. Sua última sacada foi fazer um curso formatado como um jogo de computador em rede. Em vez de ir para a aula, os alunos ficavam em casa, jogando. “A internet revolucionou o ensino superior e agora estamos entendendo o melhor jeito de utilizá-la”, afirma.

Algumas pessoas acham que o caminho pode estar em coisas como a Peer 2 Peer University (P2PU, que em português significa algo como Universidade Ponto a Ponto, que teria o mesmo sentido que os programas de torrent, nos quais os usuários compartilham informações entre si) e a University of the People, instituições totalmente virtuais e gratuitas, lançadas no fim do ano passado. Enquanto a P2PU une estudantes de diversas partes do mundo para dividir conhecimento e aprender em poucos cursos, a University of the People tem um currículo mais parecido com o das faculdades tradicionais. Mas as duas se baseiam em encontros online de pessoas que querem aprender. E essa é a principal ideia por trás dos novos cursos superiores.

As novas ferramentas tecnológicas para auxiliar no ensino já estão disponíveis. O arsenal é amplo e vai desde redes sociais que colocam alunos e professores em contato até games online. Mas o conhecimento de ponta ainda será território das faculdades

Como a internet concentra os dois ingredientes básicos da universidade — suporte de informações e espaço de encontro —, nada mais lógico que torná-la mais um lugar para o conhecimento. Afinal, se as salas de aula e as bibliotecas tornaram-se grandes prédios e ganharam um reitor foi justamente para isto: colocar sob o mesmo teto pessoas querendo partilhar informações.

Depois do pontapé inicial, vale tudo para subverter o conceito tradicional de universidade. Vale até colocar no ar uma espécie de Facebook educacional, como a plataforma criada para o mestrado em artes da Universidade Southern Califórnia. No Brasil, existe a Stoa, que une alunos e professores da USP em uma rede para dividir arquivos e informações. O YouTube entrou no time em outubro passado e inaugurou o YouTube EDU, destinado a palestras, aulas e vídeos educativos. E o MIT (Massachusetts Institute of Technology), provavelmente um dos primeiros a usar a internet para fazer coisas ousadas e impossíveis dentro da escola, desde 2002 disponibiliza o conteúdo integral de seus cursos na internet, de forma gratuita, para quem quiser acessar. “Em vez de ganhar dinheiro com um curso online decidimos dar todo o conteúdo das aulas de graça”, diz Steve Carson, um dos diretores do MIT OpenCourseWare. “Foi o único modo que encontramos para disseminar o conhecimento do instituto de forma barata.” A evolução dessa boa ideia é hoje um consórcio com cerca de 200 faculdades de 32 países que publicam toda a matéria de suas graduações e pós-graduações na rede, gratuitamente. Por aqui, quem representa o consórcio é a FGV (Fundação Getúlio Vargas), que dá até certificado de participação para quem acessa as aulas da FGV online.

Todas essas inovações, no entanto, não farão com que os edifícios das universidades sejam abandonados em nome da tecnologia. A interação humana será sempre necessária. Sem ela, as bibliotecas jamais teriam evoluído para as faculdades. Alguém precisa responder às dúvidas dos aprendizes e, afinal, fazer trabalhos em grupo é bem melhor que ficar sozinho, batendo a cabeça na parede para ter ideias criativas para a monografia. E, para isso, nada como a velha sala de aula, a caneta e o papel. As universidades tradicionais vão mudar muito, mas ainda serão as responsáveis por validar todo conhecimento que o estudante adquiriu em fontes diversas — o que, até hoje, não acontece. “A faculdade será apenas o indutor do conhecimento, encaminhando o aluno para o melhor conteúdo possível”, diz o professor Stavros Xantopoylos, diretor executivo da FGV Online. “Talvez passe a ser uma butique premium, onde apenas o saber de ponta será compartilhado em espaços físicos.” Ou seja, ensino online e tradicional vão coexistir, de acordo com as necessidades dos estudantes, ampliando as alternativas para quem quer estudar. Assim, alguém poderá, por exemplo, fazer sua matrícula numa universidade do Rio Grande do Sul e pegar algumas disciplinas em faculdades do Nordeste, da Amazônia, dos Estados Unidos e da França sem precisar viajar até nenhum desses lugares, apenas usando redes sociais ou cursos online. No futuro, só não estudará quem não quiser.

DO LIVRO À WEBCAM | As universidades quase não mudaram desde o século 11. Mas a internet está revolucionando a cara das velhas instituições 

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