Por onde caminha o jornal impresso?


Nas últimas duas semanas li dois livros. O primeiro, El fin de los periódicos, é de Arcadi Espada e Ernesto Herández Busto. O outro, El último ejemplar del New York Times – El futuro de los periódicos en papel, publicado pela Editorial Sol90media, foi escrito por Vittorio Sabadin. Vou tratar aqui deste último livro.

Sabadin trabalha desde 1979 no diário italiano La Stampa. Ele é responsável pela integração entre a redação do impresso e a internet. Contundente, o livro traz uma infinidade de dados sobre os principais jornais em circulação no mundo. O ponto-chave de sua publicação é a indagação que faz sobre o futuro dos jornais. Para ele é: “Renovar ou morrer”. “El ‘glorioso pasado’ de los periódicos ya no volverá. Las empresas editoriales afrontan una de las crisis más graves de su centenária historia.”

Algumas mudanças descritas no livro foram implementadas nos novos projetos editoriais da Folha de S. Paulo e Estadão. Ambos fizeram reformulações gráficas e editoriais este ano. A Folha de S. Paulo circulou no dia 23 de maio, com uma proposta totalmente nova. As ações da Folha, dirigidas por Sérgio D’Avila, e do Estadão, coordenadas pelo escritório Cases i Associats de Barcelona – Espanha, vão de encontro às propostas de diversos outros jornais da Europa e dos Estados Unidos.

Alguns pontos comuns podem ser encontrados no livro de Sabadin. São caminhos, ensaios e ideias para tentar tirar o jornal da crise que ele se encontra. Uma delas é a necessidade dos jornais em tratar de assuntos hiperlocais e nichos de leitores. Para isso, terão que reduzir formatos, reformar o sistema de distribuição e ampliar o campo de ação em novos suportes multimídia.

Jornais impressos na Espanha. Praticamente todos no formato berlinder
Jornais impressos na Espanha. Praticamente todos no formato berliner

O modelo berliner agora está presente nos cadernos de Esportes da Folha de S. Paulo, acompanhando uma tendência que já se concretizou, por exemplo, nos jornais Estado de Minas e Correio Braziliense, ambos do grupo Diários Associados. Na Espanha, quase a totalidade dos jornais se apresenta nesse formato.

Reduzir custo é o lema das redações

Com o objetivo de diminuir despesas, alguns jornais norte-americanos estão demitindo seus correspondentes internacionais. O vice-presidente executivo do Boston Globe, Al Larkin, explicou a razão por que teria que fechar as sucursais em Berlim, Bogotá e Jerusalém: “Desta maneira se economiza um milhão de dólares por ano, um valor que permite pagar uma dezena de repórteres locais”.

A conclusão de Larkin parece ser comum entre os empresários de jornais. Contratar um repórter local, muitas vezes com pouca experiência, pode sair muito caro para as empresas, a longo prazo. A credibilidade, que não se ganha do dia para a noite, é ainda um fator propulsor para a venda de jornais.

De outro lado, Polk Laffoon, porta-voz da Knight Ridder, empresa de comunicação dos Estados Unidos, foi incisivo em sua crítica ao jornalismo atual: “Gostaria que existisse uma forte correlação entre o jornalismo de qualidade e a venda de jornais. Porém, isso não é tão simples assim.” Contrariando a visão desse empresário, a Folha conta hoje com uma equipe de mais de 100 colunistas, fato raro nas redações hoje em dia.

O que está em jogo não é vender jornal, e sim, a informação, em qualquer suporte que seja. Não podemos afirmar que o papel-jornal deixará de existir como suporte, mas informar independe de tinta e papel. Leitores de conteúdo em telas sensíveis ao toque, celulares ou qualquer outro suporte de hoje ou do futuro não deixarão de dar aos veículos de comunicação sérios a relevância que têm hoje.

Mas como conviver com o paradoxo de um jornal impresso de qualidade versus a fuga de leitores? Como justificar investimento em reportagens especiais? Um informe da State of the News Media trata como paradoxo o fato de que, enquanto cresce o numero de lugares em que se elabora ou recebe informação, a audiência nesses lugares tem a tendência de, cada vez mais, se comprimir e fragmentar. Portanto, a solução seria permitir aos jornalistas se mover em busca de histórias para contar. Mas os jornais cortam viagens a congressos e repórteres especiais são vistos como artigos de luxo em algumas redações.

As empresas de comunicação devem ficar atentas não somente ao fluxo e distribuição de notícias. Devem observar tendências, participar de redes sociais e conversar intimamente com uma massa de crianças e adolescentes não muito dispostos à leitura analítica encontrada nos jornais.

Para tentar suprir a queda nas vendas, alavancadas pela falta de “novidade” estampada diariamente nas capas dos jornais, as empresas jornalísticas começaram a agregar produtos, como livros, CDs e adornos de cozinha em suas edições. Com isso, conseguem manter a tiragem dos jornais. Mas esse artifício já começa a dar sinais de saturação.

Com um tom sarcástico, Sabadin conclui um capítulo dizendo que os leitores convivem hoje com rotativas do século XIX, rádios e televisões do século XX, sites e blogs do século XXI e enfatiza: “Os sistemas mais antigos é que terão que se adaptar e mudar”.

Redação do futuro

No capítulo 8, o autor fala da redação do futuro.  Para ele, as redações do jornal impresso e da web, em geral, estavam muito distantes fisicamente e com culturas muito distintas. A redação da Folha de S. Paulo integra definitivamente suas redações de on-line e impresso e, com isso, consegue manter uma central de produção de notícias funcionando 24 horas por dia.

A Folha propõe agora um texto analítico e sintético, o que causa estranheza entre alguns de seus colaboradores. O fato é que nossa cognição está mudando. Cada vez mais escaneamos com os olhos as informações em telas de computadores e celulares (veja vídeo). Sendo assim, em poucos anos já teremos criado o hábito de ler textos bem menores.

Estudos mostram que a velocidade de leitura em uma tela é 25% inferior à de uma leitura em papel. Portanto, os textos na internet deveriam ser reduzidos proporcionalmente a esse valor com frases e capítulos mais curtos, um volume maior de subtítulos e mais hipertextual.

O trabalho em equipe realizado pela Folha de S. Paulo mostra que tomar decisões hoje em dia, mais do que em qualquer outra época da história do jornalismo, pode significar a diferença entre sobreviver ou não neste mercado. O jornal Globe and Mail de Toronto, Canadá, por exemplo, compartilhou as decisões e estratégias de integração das redações com todos os 225 funcionários da redação. Solicitou a eles sugestões em um projeto conhecido como “reimagination”. Cada um dos funcionários teria que propor ideias que permitissem ao diário canadense migrar para o universo digital. Chegaram 160 sugestões, das quais mais de 20 foram utilizadas na operação de integração das redações on e off line. Isso demonstra que hoje em dia pensar comunicação é, acima de tudo, ouvir colaboradores, leitores e funcionários. Empresas devem investir em inovação e incentivar seus colaboradores a participar das mudanças.

2 comentários sobre “Por onde caminha o jornal impresso?

  1. Esse é realmente um post muito interessante, ele possui muitos tópicos para argumentações polêmicas. Dois me chamaram mais a atenção, o primeiro sobre a confiabilidade da informação e o segundo sobre o movimento dos olhos.

    Acredito que as redes sem fio e os dispositivos móveis de leitura terão um papel importante na revitalização dessas mídias. Veja o meu raciocínio, o ato de ler jornal está associado a uma rotina, sentar-se ao café, passar a tarde de domingo, esperar o ônibus, todos esses me parecem exemplos dos momentos em que o jornal se coloca em frente as pessoas. Um dispositivo móvel conectado a uma rede sem fio é capaz de produzir um jornal online acessivel a esses momentos. Ai a confiabilidade volta a ser um fator importante, que jornal online acessar?

    Quanto ao movimento dos olhos, não sei se os textos necessariamente deveriam diminuir, eu acho que esse estudo podia ampliar a ideia anterior da seguinte forma. Se eu estou no meu dispositivo móvel, qual a minha relação de leitura. Sentado a frente do computador, é bem diferente de estar com um aparelho de leitura online em um cafe.

    Ainda me frustra ver algumas soluções de desenvolvimento tecnológico sem um estudo mais aprofundado do comportamento cultural do usuário. Ler jornal no computador é diferente de ler na rua, existe espaço para as duas situações.

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