Informação em primeiro lugar


Ellen Cristie*

Inauguro aqui este espaço com minhas angústias, angústias essas similares a de dezenas ou até centenas de jornalistas brasileiros que trabalham na redação de pequenos, médios e grandes jornais atualmente. Aos 38 anos e 16 de redação, assisto triste à derrocada na venda dos jornais de papel e sofro todos os dias com isso.

Findo o mestrado, há pouco mais de um ano, onde o que mais discuti foi a possibilidade do fim do jornalismo impresso, vejo que o jornalismo na sua real concepção acabou faz tempo. E não digo isso somente com relação ao impresso. O macrojornalismo mesmo. Ele se foi, se perdeu em meio a aparatos tecnológicos, a jornalistas que não se levantam mais da cadeira, a leitores que mudaram de perfil e ninguém se lembrou deles, e a empresários que se esqueceram do jornalismo de qualidade e começaram a pensar a informação apenas como fonte de lucro.

Em meio a tudo isso, há vários teóricos e empiristas tentando “pôr a cachola pra funcionar”, numa busca desenfreada por uma resposta para o futuro dos jornais de papel e da comunicação em geral. Onde a informação vai circular? Como será essa informação? Quem é esse novo leitor? Gosto muito do texto de Ramon Salaverría, em O Destino do Jornal, de Lourival Sant’Anna. Gosto tanto que incluí alguns trechos dos pensamentos do professor espanhol em minha dissertação.

“O que vai acontecer com o jornal de papel deveria importar relativamente pouco para as empresas de comunicação. A questão é muito importante para o segmento do papel e da celulose, para quem o mercado dos jornais é prioritário. O mercado das empresas informativas não é o mercado do papel, é o mercado da informação.” (SALAVERRÍA, 2008, p. 84).

Gostaria muito de ser otimista como Salaverría, mas em termos de Brasil, a coisa não é bem assim. O futuro do jornal de papel é muito importante para as empresas de comunicação sim, porque ainda, diferentemente dos países europeus, não houve a migração dos recursos publicitários do impresso para outros meios, como a internet ou o celular.

Não é que eu acredite que isso não vá ocorrer. É uma tendência, mas essa migração ainda é incipiente, embora os níveis de audiência da web, por exemplo, sejam significativos. Mas quem realmente compra algum produto com base em banners estampados nas páginas de internet? Poucas pessoas, menos ainda do que aquelas que veem um anúncio no jornal. A impressão é de que uma campanha publicitária em papel ainda é mais valorizada do que uma publicidade feita na web, não sei dizer se pelo fato de que no papel você tem uma sensação de que a informação é perene, durável e a internet dá uma ideia de efemeridade.

Por outro lado, longe de mim ser pessimista. Acredito nas novas tecnologias como meios significativos de transmissão de informação, especialmente se considerarmos serem elas as responsáveis por transformar o leitor, ouvinte, espectador e usuário em alguém que recebe a informação, reage e, que, portanto, produz.

Esse é apenas um ponto de partida para novas discussões. Mas não há dúvidas de que a imprensa brasileira passa por uma nova transição que vai ter reflexos nas próximas décadas.

(*) Ellen Cristie é jornalista, mestre em Comunicação Social e subeditora do jornal Estado de Minas no Núcleo de Suplementos e Revistas. Agora é colaboradora deste blog.

2 comentários sobre “Informação em primeiro lugar

  1. O jornalismo impresso não vai morrer. Ele vai sofrer algumas mutações, mas nada que não nós não nos adaptemos. É da natureza humana se adaptar a mudanças, muito mais da natureza jornalistíca se reinventar para não padecer.
    O impresso é o meio mais tradicional de informação e isso não tem como ser reinventado, dessa forma, mesmo que os empresários do ramo da comunicação nos prejudiquem, eles não vão obter êxito para extinguir a nossa “raça”.
    O jornalismo já venceu a censura do período militar e até mesmo o tempo, não vai ser uma série de novidades que vai assassiná-lo. E assim que nos adaptarmos voltaremos melhor e mais forte.

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  2. Nossa,
    quantas vezes não conversamos sobre essas aflições que cercam os jornalistas, né. Prefiro não pensar na morte do jornal impresso (que me deprime)e sim em uma outra forma de fazer jornal, mais crítico e próximo ao leitor. Parabéns pelo texto.
    bjs.

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