Boas notícias? Mais ou menos…


Ellen Cristie*

Nem tudo é prejuízo quando o assunto é mídia impressa. A revista The Economist trouxe em junho a matéria “A estranha sobrevivência da tinta”, destacando entre outros exemplos o mercado de jornais impressos do Brasil. A reportagem destaca que modelos como o norte-americano, o alemão e o brasileiro sobreviveram às mais catastróficas previsões de 2009 diante da crise financeira mundial, e até apresentaram um crescimento na circulação, representando um fôlego a mais para as empresas de comunicação.

A bem da verdade, não dá para ficar totalmente feliz com a notícia, já que no caso brasileiro, o crescimento na circulação total – de um milhão de exemplares há 10 anos para 8,2 milhões de unidades atualmente – deve-se mais especificamente aos tabloides populares, que se espalharam, transformando-se no mais novo fenômeno da imprensa no Brasil. Prova disso é que entre os 10 jornais mais vendidos no país, três eram tabloides em 2003. Hoje, cinco já se apresentam nesse formato e muitos donos de jornais já pensam em substituir o standard (modelo secular) por designs mais modernos, como o berliner ou o próprio tabloide.

Triste mesmo é a explicação apresentada pela The Economist ao comentar o aumento de circulação dos jornais brasileiros. “A crescente classe média do Brasil gosta de jornais baratos, que exploram os assassinatos e os biquínis”, referindo-se à exploração de mulheres praticamente nuas nas capas desses tabloides.

Mathias Döpfner, diretor-executivo do grupo Axel Springer, da Alemanha, acredita que o impresso, como modelo de negócio, vai viver mais do que as pessoas imaginam. O grupo alemão, por exemplo, tem margem de lucro de 27%. Mas o mesmo Döpfner que sugere uma possível melhora no mercado jornalístico mundial, comenta que a sobrevivência dos jornais não é garantida. “Eles ainda enfrentam grandes obstáculos estruturais: continua incerto, por exemplo, se os jovens irão pagar pelas notícias.”

Na verdade, é mais incerto ainda se mesmo os adultos irão pagar por conteúdo diferenciado, já que as pessoas estão aprendendo a buscar notícias de graça, seja on line, seja em publicações distribuídas nos metrôs e em pontos turísticos. Talvez, em breve, o New York Times nos dê essas respostas.

Mas a reportagem alerta também para dados da Newspaper Association of America, que revelam a queda publicitária on line e no impresso de 35% desde o primeiro trimestre de 2008. Mesmo países como o Japão, considerado o maior mercado editorial do mundo em termos de circulação, está perdendo gradualmente seus leitores, embora ainda tenha um longo caminho a percorrer dado o contingente populacional avantajado.

Veja documentário sobre o jornal impresso na Espanha.

Uma das tendências apontadas pela The Economist é priorizar o que os leitores querem ler, em oposição ao que os jornais e jornalistas sugerem que eles devem ler, baseados em responsabilidade cívica. Segundo a revista, isso é uma tendência global – os jornais estão cada vez mais focados no cliente. Em vez de tentar reunir o maior número de leitores, as empresas de comunicação estão cavando nichos, grupos específicos e fortes, e, talvez, com maiores possibilidades de fidelização. Não é à toa que os jornais norte-americanos estão investindo maciçamente em reportagens locais e de esporte, deixando de lado assuntos considerados de maior amplitude, repassando essa responsabilidade para organizações como a Associated Press. Jornais metropolitanos estão sendo substituídos por jornais da cidade, de bairro, do grupo.

A expectativa dos donos de jornais é que essa ênfase em conteúdos mais personalizados facilite a transição da distribuição do impresso para a versão digital. Mas isso é uma outra história. O bom da crise pela qual atravessam os jornais, se é que podemos apontar vantagens em tempos de crise, é que a recessão gera habilidades até então desconhecidas de readaptação. Se os jornais forem capazes de se manterem diante da crise, quem sabe não serão também capazes de galgar patamares mais elevados.

(*) Ellen Cristie é jornalista, mestre em Comunicação Social e subeditora do jornal Estado de Minas no Núcleo de Suplementos e Revistas. Agora é colaboradora deste blog. Participa doblog www.uai.com.br/desaltoalto

2 comentários sobre “Boas notícias? Mais ou menos…

  1. Ei, Ellen.

    Será que sobreviveremos? Rs… Os jornais ameaçados e os jornalistas sem diplomas… Acho que, em um futuro breve, estaremos todos em extinção. Rs… Parabéns pela colaboração no blog. E parabéns ao Alysson pelo blog.

    Abração.

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  2. Muito pertinente seu post Ellen. Parabéns pelo belíssimo texto. Estou preparando um post sobre a realidade do impresso na Espanha e os números do último relatório é assustador. A publicidade no impresso vem caindo enquanto na internet tem crescido substancialmente. O Jornal do Brasil, que já foi o jornal mais lido e respeitado do país, e se transformou em tablóide, faz uma pesquisa para verificar junto aos seus leitores sobre o fim da edição impressa e a manutenção, apenas, de sua versão on-line. O jeito é estudar e observar tendencias!

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