A hora e a vez da geekonomía


Alysson Lisboa Neves

Hugo Pardo Kuklinski é fundador do CampusMovil.net, membro do laboratório de meios interativos da Universidade de Barcelona, professor do Departamento de Comunicação Digital da Universidade de Vic e autor do livro Planeta web 2.0, disponível na internet.

Livro de Hugo Pardo
Geekonomía, um radar para produzir no pós-digitalismo

Lançada este ano, a obra Geekonomía – um radar para produzir no pós-digitalismo fala sobre o caminho que se abriu depois da entrada de novos personagens na economia mundial, os geeks. E discorre sobre a profunda crise que a universidade atravessa. A definição encontrada no Wikipédia para geek é bem parecida com a expressão nerd, famosa nos anos 1990. “Geek é uma gíria que define pessoas obcecadas por tecnologia, eletrônica, videojogos etc.”

O professor Hugo Pardo traz um conceito mais abrangente e trata os geeks como aqueles que redesenham a economia, convertendo-a em “geekonomia”. Esses personagens mudam as relações pessoais e são capazes de criar os instrumentos que utilizam ou de se reapropriar, de maneira criativa, dos já existentes.

Para ele, os geeks são os novos escribas do mundo. Estes novos personagens mudam a cultura hegemônica do século 20, que operava sob a filosofia da escassez. A indústria discográfica, editoras, imprensa tradicional, canais de televisão, distribuidoras de filmes e agências de publicidade tinham seus mercados muito bem definidos e fechados.

O Google criou um modelo de negócios gratuito, baseado na administração e gerenciamento de informação abundante. Seu foco é o usuário. Em um documento sobre pirataria, referindo-se à web 2.0, o professor diz que a falta de visibilidade de uma obra é, para o autor, um problema muito maior que a pirataria. São publicados, só nos Estados Unidos, 100 mil livros por ano. Desses, 10% conseguem vendas significativas e apenas 1% está disponível nas grandes livrarias. Para os outros 90% dos autores, que estão no anonimato, o importante não é ganhar dinheiro com direitos autorais, e sim, ser lidos. Assim, podem sair do obscurantismo em que se encontram, acredita Pardo.

O mesmo ocorre com a indústria do cinema, em que milhares de diretores e produtores não chegam às principais salas de exibição, pois são prejudicados por um modelo de distribuição dominada por Hollywood. Para mudar tudo isso entram em cena os geeks. Em entrevista exclusiva ao Estado de Minas, o pesquisador, expert em análises comunicativas na web, fala sobre esta nova era. Veja a íntegra da entrevista.

Entrevista/Hugo Pardo

A distribuição do pensamento

Como tratar a questão dos direitos autorais em uma época em que as pessoas se apropriam de obras intelectuais, modificam-nas, ampliam-nas e as redistribuem, no movimento conhecido também como cultura remix?
As licenças Creative Commons (veja quadro) são ideais para a era do remix e do pensamento distribuído. Falta apenas atacar com mais energia o discurso hipócrita das multinacionais da indústria cultural do século 20, que criminaliza os jovens com o argumento de que eles estão fazendo pirataria. Recomendo o livro de Matt Mason, publicado em 2008, O dilema da pirataria – como a cultura jovem está reinventado o capitalismo.

No capítulo 4, você fala sobre a crise da universidade. A academia está em crise porque adota um modelo muito antigo?

O desequilíbrio entre gratuidade dos conteúdos educativos na rede e os elevados custos de matrícula nas universidades pode gerar problemas, a longo prazo, para as universidades. Se a experiência on-line se assemelha à do curso presencial, então por que pensar que as universidades não terão dificuldades ou risco de perder a intermediação por parte de seu público, como já sofreram outros atores da indústria cultural?

Qual é o principal problema que atravessa a universidade hoje? O que ocorreria se a educação adotasse massivamente a cultura Do it yourself (faça você mesmo)?
Este não é um problema que atravessa as grandes universidades. Elas continuarão explorando a economia da escassez e mantendo sua valorização exatamente por sua reputação. A dificuldade passaria para o que chamo de marcas brancas universitárias. Ou seja, instituições que não sabem ou não puderam construir prestígio em seu entorno e que têm se convertido em um custoso playground de jovens antes de sua entrada no mercado de trabalho. O aprendizado informal, cada vez mais, terá maior relevância.

“Falta apenas atacar com mais energia o discurso hipócrita das multinacionais da indústria cultural do século 20, que criminaliza os jovens com o discurso da pirataria”

Qual será o futuro da universidade?
Existe um debate muito ativo na Europa sobre a validação do aprendizado informal e o desenho de novos métodos de avaliação, além dos que concedem hoje, as instituições de educação formal.

Mas você não critica os jovens que consomem informação irrelevante ou de maneira superficial?
O que falo no livro não é uma crítica e sim uma observação para questionar aqueles que acreditam que os nativos digitais são uma geração excepcional e superior a todas as anteriores.

Deixar que o próprio estudante encontre recursos ou recupere informações não é perigoso?
Não, como pode ser perigoso? Viva o remix! O professor deve promover a contribuição de valor agregado aos textos que compartilha com seus alunos. Deve também aprender a rejeitar o irrelevante. Recuperar a informação ficava difícil na era analógica. Hoje, a universidade deve ensinar a rejeitar e identificar os melhores recursos on-line. Separar o que é ou não relevante e prevenir a ‘infoxicação” (o excesso de conteúdo).

Como os professores, imigrantes digitais, podem competir com alunos que já nasceram na era digital?
Não devem competir, mas se complementar. As técnicas docentes analógicas ainda são muito úteis. Nada como uma boa reflexão de um expert sobre um determinado tema. O digital é complemento.

Quando seu livro chegará ao Brasil?
Ainda não temos uma data prevista. Estamos em conversações com algumas gráficas no Brasil, mas existe uma versão on-line que pode ser baixada por um sistema de doações. http://www.geekonomia.net.

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