Tecnologia para recriar os sentidos


Entrevista/Héctor Navarro Güere

Alysson Lisboa Neves

“As interfaces, cada vez mais, serão corporais, repletas de sensações”

Entrevista/Héctor Navarro Güere

Atualmente 1,8 bilhão de pessoas utilizam a internet. Em 2020, serão 5 bilhões de usuários. Os jovens interagem continuamente com as novas telas e formatos. Eles usam os dispositivos tecnológicos para a comunicação, entretenimento e estudo. Mas para onde tudo isso está caminhando? Tentando buscar respostas sobre o futuro dos suportes móveis, Héctor Navarro Güere veio ao Brasil participar de um encontro sobre o assunto com outros pesquisadores. Licenciado em comunicação social pela Universidade Central da Venezuela, doutor em belas artes pela Universidade de Barcelona, professor e pesquisador pela Universidade de Vic, também na cidade espanhola, Hector concedeu uma entrevista ao caderno Informátic@ do jornal Estado de Minas em sua passagem por Belo Horizonte. Para ele, a tecnologia estará cada vez mais integrada com o ser humano.

A inclusão digital ainda não é uma realidade no Brasil. A tecnologia, um dia, chegará a todas as partes do planeta?

Hoje já são quase 2 bilhões de pessoas conectadas. O acesso não é igual para todos nesse ecossistema de novos meios. Existirá uma espécie de “darwinismo tecnológico”, ou seja, para os mais jovens, os nativos digitais, será natural essa mudança. O outro público, os imigrantes digitais, precisa evoluir e se adaptar a essa nova realidade.

O que está ocorrendo com a comunicação digital no mundo?
Estamos em um momento-chave de mudanças de hábitos de consumo e produção de conteúdos. Vivemos diferentes formas de apropriação da tecnologia com fins informativos. Existem muitos modelos e essa quantidade de padrões é hoje um problema tecnológico.

Ler em formatos pequenos e com baixa resolução não é mais cansativo do que ler em um suporte analógico, como o livro? Não estamos mais acostumados com as imagens estáticas quando estamos lendo uma notícia, por exemplo?
Estamos vivendo uma troca de regime de visibilidade. Existe muito mais acesso hoje à informação, sobretudo por meio de imagens, sejam elas estáticas ou em movimento. A informação não é mais escrita somente sob o ponto de vista e opinião de seu autor, ou seja, de maneira linear. Ela chega também de maneira icônica. O ícone é, por natureza, polissêmico. Quer dizer, ele adquire um novo sentido além de seu sentido original. Já a informação textual precisa de um gasto perceptivo muito maior. A leitura pode ter várias direções e o mesmo ícone pode ter múltiplas interpretações.

Utilizar os tablets é uma experiência totalmente nova e multidirecional. Esse aparato mudará nossa relação com os livros?
A experiência em que o leitor escolhe diversos caminhos não é uma coisa nova. Em um livro convencional, o leitor pode, por exemplo, saltar capítulos. A leitura não precisa ser sempre sequencial. A tecnologia tem permitido e facilitado esse tipo de experiência. Vamos continuar lendo porque fazemos isso ao longo de três mil anos. Haverá apenas a introdução de novos recursos. No futuro, as experiências imersivas e inclusivas serão muito importantes e o corpo se tornará, cada vez mais, um artefato.

Mas não queremos interagir com máquinas e equipamentos a todo momento….
Concordo. Em alguns momentos, seremos ativos, e em outros, analógicos. O microscópio e o telescópio potencializam nossa visão. Por meio de novos aparatos, como celulares e leitores digitais, enriquecemos e pluralizamos a maneira como podemos intervir e participar. Levando essa experiência para a comunicação, é o mesmo que dizer que em alguns momentos seremos mais ou menos colaboradores. Não somos o tempo todo “ciberativistas”, mas temos que ser críticos sempre.

E onde tudo isso vai parar? Para onde caminha o futuro?
Imagino que em 2020 a diferença entre o visual e o físico será muito pequena. As interfaces, cada vez mais, serão corporais e repletas de sensações. Todos os sentidos poderão ser recriados tecnologicamente. O corpo será a interface. O filme Minority Report mostra bem isso. Hoje, o cinema 3D é uma realidade.

Falando um pouco sobre educação, é cada vez maior o desinteresse dos alunos por este modelo que temos hoje. Como mudar isso?
A universidade está sendo obrigada a mudar. Já se fala hoje de novos métodos de ensino, a open education. A informação não viaja mais em uma só direção, ela se constrói entre todos os alunos. A informação está na rede e o professor não é mais soberano. A experiência colaborativa 2.0 está cada vez mais presente. O modelo de um professor dogmático deve desaparecer. Um aluno inquieto e curioso tem acesso aos mesmos conteúdos que o professor. A escola será um canalizador de ideias e um orientador. Hoje, nas minhas aulas, é comum alunos contestarem o que estou mostrando, porque estão, muitas vezes, conectados à internet por meio de seus celulares e podem atualizar algumas informações que repasso a eles em tempo real. É um caminho sem volta.

Euler Júnior/EM/D. A Press

Foto: Euler Junior/EM/D.A Press
O professor Héctor Navarro acredita que os suportes móveis serão um prolongamento do nosso corpo

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