Somos todos beta-testers


Alysson Lisboa Neves

Em 2008, retornaram às concessionárias 765.478 veículos para repararem defeitos de fábrica. Foram 33 modelos atingidos pelo recall. No ano passado, o número subiu para 44. Dados deste ano mostram que o recall não para de crescer. Claro que muitas convocações são para troca de peças de segurança e, portanto, imprescindíveis para o consumidor. Muitas vezes o reconhecimento da montadora de que algo não está bem é uma atitude louvável. Porém a grande pergunta deve ser: os carros estão sendo exaustivamente testados antes de chegarem às mãos dos consumidores? Diante da concorrência desenfreada, há tempo para isso?

Saindo da esfera das montadoras de veículos e passando para o mundo dos softwares, a coisa é bem parecida. Você já  deixou seu computador sem funcionar por um mês direto? Tive essa experiência semana passada, quando precisei buscar arquivos na antiga máquina. Para minha surpresa, vários programas pediram atualização. É sabido que os programas antivirus precisam constantemente atualizar seus bancos de dados, porém, softwares como Picasa, Itunes e tantos outros solicitam atualizações quase semanalmente.

O Itunes, instalado no meu laptop, foi atualizado duas vezes em apenas uma semana. E o que isso significa? Você e quase todos os usuários do Windows já foram “presenteados” com a tela azul, não é mesmo? Diante disso apenas nos resta religar o equipamento e nada mais. Atualmente o travamento não é tão constante, mas os abruptos encerramentos de programas seguem a todo o vapor.

A grande novidade, pegando carona na tal da participação colaborativa 2.0, é você poder “contribuir” enviando o erro do travamento dos softwares para fortalecer o banco de dados das empresas. Assim você vai ajudar a minimizar os futuros problemas técnicos do aplicativo.

Acho a atitude das empresas algo louvável e, até certo ponto, compreensível. Buscam a melhoria de seus produtos a partir dos erros ocorridos em milhões de computadores dos mais diversos tipos espalhados pelo mundo. Mas na verdade o que essas constantes atualizações causam é insegurança, instabilidade e a sensação de que estamos trabalhando de graça.

Os programadores, simplesmente, lançam uma versão beta do aplicativo e colocam os usuários domésticos, ou seja, nós, para testá-los. E detalhe: Não ganhamos nenhum centavo por isso. Na verdade estamos trabalhando para a Microsoft, Apple, Adobe etc. fazendo seus programas cada vez melhores.  Por sua vez, as versões completas, após trabalhadas as melhorias que nós garimpamos, são vendidas a preço de ouro.

Celular

Você tem ou já teve algum celular com funções que nunca utilizou? Você se lembra de alguma função que simplesmente deixou de existir em celulares mais modernos? Pois é.

Você é quem testa a navegabilidade de todos os celulares que são lançados no mundo. E detalhe: de graça. Nokia, Samsung, LG e tantas outras empresas, em vez de pagarem por pesquisas caríssimas sobre navegabilidade e usabilidade, preferem lançar ao mercado seus aparelhos e esperar até que os consumidores utilizem, comentem e rejeitem as funcionalidades.

Espertas, as empresas abrem um canal nas redes sociais, observam os comentários, coletam dados, verificam vulnerabilidades e, se a coisa não estiver muito boa para a imagem da empresa, atualizam o software do aparelho corrigindo os erros, automaticamente.

Bancos

Quer um extrato detalhado da sua conta-corrente? Então imprima no conforto da sua casa. Quer uma segunda via da sua conta de água? Imprima direto do site na sua impressora doméstica. Mas tenha certeza de que nenhum banco ou empresa vai lhe fornecer tinta e papel para isso. Os custos são todos seus. O mundo da segunda via a um clique do mouse.

Uma certa vez estava dentro de uma loja de uma empresa de telefone e a atendente sugeriu que eu fizesse as solicitações através do site. Quanto menos gente nas lojas, melhor para eles.

Somos os novos escribas do mundo e os novos testadores de tudo que é fabricado no planeta. Trabalhamos para enriquecer as multinacionais de tecnologia, que roubam nossos dados e sabem tudo sobre nossos comportamentos de consumo. Emprestamos gentilmente nossa banda larga para que as empresas invadam nossa rede e descarreguem sob nossas cabeças as versões 1.2,  2.35, 5.72 e assim por diante.

Viva o mundo dos beta-testers. Bem-vindo à terceira onda da revolução industrial, na qual os funcionários escravos trabalham de graça e o pior: pagam para servir ao senhor do engenho hi-tech!

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