Ipad, vale a pena ter um?


Ellen Cristie(*)

Alysson Lisboa Neves

Ao ler o artigo do blog do engenheiro e estudioso de finanças, matemática e tecnologia Bradford Cross, Measuring Measures, Por que o iPad está destruindo o futuro do jornalismo? eu e minha companheira de blog Ellen Cristie chegamos à seguinte conclusão: o iPad não é um dispositivo revolucionário. O que é realmente revolucionário é a Internet. Um tablet sem acesso à rede mundial de computadores não serve para muita coisa.

A indústria do jornal impresso, ávida por novidades que pudessem inverter, ou, pelo menos, diminuir a acentuada queda nas vendas de jornais no mundo inteiro nos últimos anos, viu nos tablets uma chance de salvação. Mas a coisa não é tão simples assim.

Bradford Cross começa o artigo falando sobre uma tentativa frustrada dele ao enviar aos amigos uma matéria do jornal The Economist, que leu em seu iPad. “Tentei compartilhar isso com meus colegas das redes sociais, como Facebook e Twitter, mas não consigo fazer isso a partir da velha mídia”, disse, aborrecido.

Isso não é geral. Existem hoje ótimos aplicativos para o IPad. Os mais modernos como o recém lançado app do Jornal Estado de Minas permite o compartilhamento de informação por e-mail e redes sociais como Twitter e Facebook.

Aplicativo do Estado de Minas, um dos mais modernos do país
Aplicativo do Estado de Minas, um dos mais modernos do país, permite compartilhamento nas redes sociais

O analista continua sua saraivada de balas. Para ele, com o surgimento do iPad, os jornais deveriam “acordar” e começar a lançar novos produtos, a elaborar outros modelos de negócios, a integrar seu conteúdo com o da Internet, além do sistema social decorrente das nova mídias.

O que o respeitado analista não consegue perceber é que o IPad surgiu nos Estados Unidos em abril de 2010 e, de lá para cá, toda a indústria, universidades e pesquisadores nos quatro cantos do mundo não pensam em outra coisa senão em tornar o negócio do jornalismo rentável, como foi até o início do século XXI. Estudos de navegabilidade e acessibilidade, muito explorados no universo web, começam agora a ser observados sob uma nova ótica, a dos tablets.

É impossível determinar o que vai funcionar ou não em tão pouco espaço de tempo. O celular, produto consolidado em todo o mundo, tem até hoje novos modelos sendo testados o tempo todo. É um mercado pulsante, que não para de crescer e se modificar de modo exponencial.

Perceber as potencialidades dos tablets é muito fácil. Dizer do que ele é capaz é fácil também para qualquer pessoa interessada em tecnologia. Agora, o que pouca gente sabe é o quão complexa é a programação para esse novo suporte. O simples toque na tela, a utilização do acelerômetro (que tomba a tela de vertical para horizontal) parece ao leigo um passe de mágica, mas não é tão simples assim. Cada novidade, cada atualização de software requer um novo estudo, mudança em complexas linhas de programação.

Para Bradford, na onda da inovação vieram “trocentos” aplicativos para os tablets, uma proliferação de formas e marcas, muitas que podiam ir direto para o lixo. Mas não é bem por aí. Muitos aplicativos dessa “primeira geração” para IPad vieram para testar modelos, observar comportamento dos usuários, colher depoimentos de pessoas que utilizam o produto. Muitos são gratuitos ou cobram preços irrisórios. Tudo isso, como já havíamos dito, para testar as potencialidades do novo gadget.

Isso é muito louvável. Estamos testando aplicativos para a indústria. Falamos um pouco sobre isso em outro post. Enquanto testamos funcionalidades, nos divertimos, nos informamos e participamos de uma rede de inovação jamais vista na história da informática. No Galaxy Tab os problemas com os aplicativos são recorrentes. Centenas de aplicativos do Galaxy ou são inúteis ou simplesmente não funcionam.

Erros nos aplicativos do Galaxy Tab são constantes
Erros nos aplicativos do Galaxy Tab são constantes

Para dificultar ainda mais a vida de quem pensa em aplicativos para os tablets, vale ressaltar que cada fabricante opta por um sistema operacional diferente. Isso torna impossível a criação de aplicativos únicos para todos os modelos.

Várias empresas anunciaram seus tablets, mas poucos já estão no mercado hoje. Isso também dificulta compará-los de maneira mais abrangente e determinar qual será a fatia de mercado de cada um.

A publicidade no iPad tem grande potencialidade. A interatividade, imersão e participação do prospect nas campanhas é algo muito possível e já está sendo desenvolvido por algumas revistas e jornais mundo afora. Porém, esse caminho é totalmente novo. Podemos pensar em publicidade altamente segmentada e direcionada a um público específico a partir, por exemplo, de sua localização geográfica. Poucas empresas já trabalham hoje sob essa ótica.

Infelizmente, ninguém tem ainda um veredicto sobre os rumos do jornalismo impresso, e as empresas de comunicação se pautam pela comodidade de anunciantes temerosos com a migração para os novos meios ou utilizam o velho formato maquiado para uma tela de 9 polegadas.

O iPad não será um produto de massa, pelo menos por enquanto. Seu preço não é convidativo e ainda o custo da rede 3G e Wi-Fi no Brasil é de impressionar. Veja gráfico.

Velocidade e custo da internet no mundo
Velocidade e custo da internet no mundo

De tudo que o especialista em análises comportamentais Bradford Cross diz, o mais importante é que ninguém capta informações de apenas uma fonte e essa é a grande sacada da Internet. Ninguém quer também um aplicativo para cada fonte de informação ou que sejam apenas bonitinhos e pouco funcionais.

Não se pode negar aqui a eficácia de alguns aplicativos e o estímulo a novas formas de leitura. Mas se o caminho para o sucesso é investimento, por que então a insistência em fórmulas velhas e improváveis? Por que pensar nos tablets apenas como receptores de informações advindas dos impressos?

Os aplicativos para as pranchetas eletrônicas passam, obrigatoriamente, pela inovação, capacidade de informar com precisão, fortalecimento da marca e mais: devem estar inseridos em um ambiente lúdico, capaz de cativar o usuário a ponto de fazê-lo retornar sempre a aquele aplicativo como sua principal fonte de informação.  Se os jornais conseguirem fazer isso, o sucesso estará garantido.

Há alguns meses traduzimos um fluxo de trabalho desenvolvido pela Webbmedia Group. Esse trabalho contempla seis competências fundamentais para a produção de conteúdo editorial on-line. A produção de conteúdo para iPad, deverá, inevitavelmente, passar por algumas dessas etapas. É claro que estamos falando de uma estrutura perfeita, com verba e pessoal treinado. Mas é claro também que o novo mercado da comunicação digital exige tais investimentos. Mesmo que a longo prazo.

(*) Ellen Cristie é jornalista, mestre em Comunicação Social e subeditora do jornal Estado de Minas no Núcleo de Suplementos e Revistas. É colaboradora deste blog e escreve  para o blog De bem com a vida

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