O futuro do papel jornal; o papel jornal no futuro


Imagem
Entrevista Rafael Höhr – diretor de arte do jornal The Sunday Times – Londre

Por: Alysson Lisboa Neves

Rafael Höhr é editor multimídia e de gráficos interativos do jornal britânico The Sunday Times. Ele trabalha há quatro anos na busca por um modelo de inovação para tablets e smartphones para o jornal semanal. Em entrevista exclusiva para o blog ETC&Digital, o jornalista conversou sobre os rumos do jornal impresso e os novos desafios do mercado editorial.

Como você chegou ao The Sunday Times e qual é sua função no periódico?
Sou licenciado em comunicação pela Universidade de Sevilha. Cheguei ao The Sunday Times como consultor e diretor do Departamento de Infográficos da publicação. Trabalho na preparação do jornal para enfrentar a mudança digital, primeiramente para a web e depois para tablets e smartphones.

Como a crise que a Europa enfrenta impacta a venda de jornais e revistas?
Toda a Europa está sofrendo com a crise e isso ocorre em todos os setores, não apenas a imprensa. A venda de jornais, assim como a publicidade, está em queda. As vendas de revistas também diminuem, embora a publicidade esteja migrando para o digital. Estamos esperando uma rápida ascensão dos tablets e dos demais dispositivos móveis e, consequentemente, a migração maciça da publicidade.

Você acredita no fim do jornal em papel?
Não, definitivamente não. Acredito que cada dispositivo tem seu público e seu ciclo de vida. Com o tempo não vão desaparecer e sim mudar. Evoluem e criam-se novos produtos. A web nasceu dos meios de comunicação. Nasceu de forma dependente, ligada ao papel e depois se tornou independente.

Mas e os jovens? De modo geral, estão deixando de consumir papel?
Sim, os jovens estão cada vez consumindo menos papel. Consomem conteúdo prioritariamente na web e em tablets. Pode ser que no futuro o papel desapareça, porém, matar o formato é uma ideia muito pobre. Pode ser que a impressão diária de papel acabe e as empresas escolham um modelo que seja impresso semanalmente. O consumo será de outra maneira.

No Brasil, alguns jornais têm convertido o formato tradicional para o Berliner, um formato mais fácil de ler e de transportar. Na Europa é muito utilizado. Você acha que é o caminho certo?
Tudo o que se pode fazer para reduzir o custo de produção é um caminho acertado. O The Times, que também pertence ao grupo, migrou para um formato menor. Já o Sunday Times tem um formato maior e se mantém assim. Os dois convivem bem dentro de uma mesma empresa.

Alguns pesquisadores afirmam que não existe mais espaço para os jornais diários. O ideal seria a publicação de edições de dois em dois dias para que seja possível consolidar os assuntos importantes e preparar melhor graficamente o jornal.
São modelos que deveriam ser testados pelas empresas. O consumo diário, imediato é cada vez mais buscado por meio dos dispositivos móvei. O consumo, digamos, mais relaxado e contemplativo tem mais sentido. Então, uma leitura mais profunda demanda uma edição maior em dois ou três dias. Um leitor que recebe uma notícia na segunda pela internet ou pelo celular pode receber o jornal na quarta-feira com a notícia consolidada impressa, bem editada, com um bom trabalho de documentação e investigação. O consumidor que quer informação rápida não significa que possa consumir também uma informação lenta. É perfeitamente compatível. Existem alguns jornais que já estão apostando em uma edição dominical com muito conteúdo. Uma leitura de fim de semana ao invés da leitura rápida.

Como atrair a atenção de jovens para o consumo de informação?
Os jovens consomem informação. Porém, só o que interessa a eles. Leem o que querem e o conteúdo tem que ser atrativo. Isso se faz com edição. As crianças devem ser educadas a consumir notícias.

Você conhece os jornais brasileiros? O que acha deles?
Conheço poucos jornais brasileiros, mas conheço bem os infográficos de revistas como a Superinteressante. O Brasil produz muito bem infográficos interativos em sites e portais web.

Quais são as principais mudanças que o The Sunday Times traz em sua versão para tablets?
Nos tablets a mudança é total. Tanto no desenho das páginas, como no conteúdo porque os códigos de leitura e o perfil dos leitores são outros. A nova interface requer uma nova maneira de consumir informação. Não é um produto de massa, tem um deadline diferente da redação. No aplicativo do jornal, as notícias são atualizadas diariamente e completadas com elementos multimídia. Mudamos a redação para tentar buscar os recursos do produto impresso. Assim, vamos criando um núcleo de experiência e adaptação. É um exercício diário. O resultado disso são mais de 125 mil assinantes digitais que compram o jornal na App Store, loja virtual da Apple.

E o futuro das telas? Para onde estamos caminhando?
Os dispositivos evoluem até um determinado ponto. Depois, são substituídos por outros modelos. Agora, estamos falando da mudança de um formato para outro. A evolução acontecerá para que os dispositivos fiquem cada vez mais próximos das pessoas, dos consumidores.