A geração das telas e o mundo transmídia


Sofia, dois anos usa três tablets iPad para brincar. Na hora de dormir leva o boneco Pocoyo (físico) para a cama
Sofia, dois anos usa três tablets iPad para brincar

Essa garotinha se chama Sofia e acaba de completar 2 anos. Ela brinca com o Pocoyo na tela de três tablets, além do boneco “físico”, que também acompanha as brincadeiras da menina. Filha única, ela mora com o pai Gilson e a mãe Patrícia em Belo Horizonte. Sua rotina é colocar todos os tablets da família sobre o sofá e se divertir por horas. O consumo de telas pelos nativos digitais é um assunto recorrente, porém,  a transmidialidade, um assunto novo, é tema do ótimo livro do pesquisador Carlos Scolari.

O tema está presente nessa imagem em que objetos físicos, telas, jogos remotos e diversos outros aparatos servem como suportes ao lúdico. Sem sombra de dúvidas a transmídia transforma produtos únicos, como um filme de cinema, em algo mais amplo. Isso possibilita que o produto chegue a todos os públicos, telas, formatos e fluxos de exposição atemporais.  O eixo central das narrativas transmídia mostra um público fiel ao produto e capaz de extrapolar uma única mídia, conversando com diversos outros canais de distribuição. Meios físicos, móveis, games, avatares. Um espaço orgânico auto-organizado e autogerado.

O consumo de telas nada mais é que o consumo de mídias interativas e imersivas. O jornalismo de sensações, os óculos que o Google deve lançar em breve, são extensões possíveis do corpo, inteligência colaborativa. A nova configuração do mundo não é apenas digital, apática e fria. Trafega agora por uma teia complexa de sentidos multimidiáticos. Personagens originários do cinema ganham novas telas, o mundo físico invade redes sociais, viram memes no YouTube e são reinventados a toda hora. Assim,  conseguem gerar novos personagens, novas histórias e concepções, e pulverizar conteúdo para públicos diversos.

O exemplo exposto nessa imagem vai além da percepção apocalíptica do fim do papel, da mudança cognitiva ou de qualquer outra profecia quanto ao futuro (incerto) da nova geração de consumidores de telas. O que vale, a priori, é reconhecer o fenômeno como atual, irreversível e crescente. Mídias tradicionais como a TV reconhecem o poder das telas e buscam tirar proveito dessa realidade. O canal a cabo SporTV já disponibiliza aplicativos para telas de smartphones e tablets para que o espectador, agora ativo, acompanhe, durante a transmissão de jogos de futebol, o resultado de outros jogos, podendo, inclusive, rever gols e comentar sobre os jogos. Contudo, reconheço a força da televisão, mas ela está, cada vez menos, atrelada ao eixo central do discurso da mídia do século 20. A caixa preta está mais sonora e participativa. Não existe mais o espectador passivo e neutro. Estamos no caminho do “plus screen”, onde telas se complementam, conversam entre si e se reconstroem, organicamente. As relações entre espectador e mídia nunca mais serão as mesmas.