Jornais saindo pela porta dos fundos


Depois de pouco mais de dois anos da última reformulação e redesenho, o Jornal Estado de S. Paulo entra novamente no circuito das mudanças em busca do leitor perdido. Perdidos ficaram também os mais de 30 profissionais que foram demitidos após a redução de cadernos e fusão de editorias. No portal do jornal a matéria dava um tom de otimismo e falava sobre a nova organização do jornal impresso, veja. E foi anunciada ainda para este ano uma série de ações em dispositivos móveis. O mesmo se avizinha nos jornais de Minas Gerais.

Na semana passada, eu me deparei com uma palestra proferida pelo grande professor Ramón Salaverría, titular da cadeira de jornalismo na Universidade de Navarra, na Espanha. Na ocasião, o professor falou para os alunos do curso de mestrado na Universidad de La Sabana, na Colômbia. Foi mais de uma hora de vídeo que pode ser visto aqui. Com o título Claves digitales para un nuevo periodismo, Salaverría culpa os jornalistas pela fuga de leitores e pela queda nas vendas. Até o fechamento deste post, 161 pessoas haviam assistido ao vídeo a que me refiro. Já o esquete Meias Palavras, do grupo Porta dos Fundos, em que um ilário repórter, interpretado por Gregorio Duvivier, faz uma matéria jornalística em uma delegacia, foi assistido mais de dois milhões e setecentas mil vezes.

O que esses dois universos têm em comum? Ambos falam da tragédia, da vida cotidiana e mostram claramente a discrepância entre o que as empresas de comunicação fazem com o jornal impresso e o “desprezo” dos jornais-portais pelo filão dos vídeos. Além disso, mostram universos distintos quando a assunto é fazer comunicação. Produzir conteúdo sempre foi a tônica dos jornais impressos e o patrimônio das empresas jornalísticas, mas parece que essa regra básica que imperou durante todo o século 20 não faz mais sentido. Fecham conteúdo e obrigam os leitores a fazer uma assinatura do jornal. Não compartilham, dificultam a comunicação nas redes sociais, se fecham ao grande público e forçam a narrativa meramente textual quando estamos nos transformando cada vez mais em espectadores de vídeos.

Morte anunciada

Os jornais de Minas Gerais, não diferente do restante do país, também se afogam em crise. Ignoram pesquisas, tendências ou qualquer outro indicativo. Estudos recentes dão conta de que o YouTube é hoje o segundo maior buscador, depois do Google. Outras pesquisas mostram que em 2016 95% do conteúdo informativo na web será gerado em vídeo. Você imagina então quantos inscritos existem nos canais dos jornais mineiros no YouTube? Vamos conferir.

Hoje em Dia – 72 inscritos e 23.237 visualizações

Estado de Minas – 6 inscritos e 1.840 visualizações

O Tempo On line – 288 inscritos e 338 mil visualizações

Conversando com amigos que trabalham nesses veículos, a resposta é sempre a mesma. A empresa fechou o estúdio de vídeo dentro da redação. A produção de vídeos ainda é vista como custo dentro das redações.

O canal Porta dos Fundos, ao qual me referi neste post, tem 2.777.657 inscritos e quase 300 milhões de visualizações. São três milhões de pessoas interessadas no que eles têm a dizer (e vender). Somados, os jornais citados acima têm mais de 110 anos. A produtora Porta dos Fundos foi inaugurada em março de 2012. Precisa dizer mais alguma coisa?