Jornalismo pós-industrial


Passei o fim de semana lendo um delicioso e provocador texto publicado pela Columbia Journalism Review, na Revista de Jornalismo da ESPM. São 60 páginas (sem gravuras) divididas em três partes. Com título Jornalismo pós-índustrial – adaptação aos novos tempos, o texto é brilhante exatamente porque não está atrelado à academia nem tampouco é um amontoado de cases de sucesso ou hiperlinks. Vai muito além disso. O relatório foi escrito por C.W. Anderson, Emily Bell e Clay Shirky e narra de forma definitiva como as práticas jornalísticas se alteraram, pregando contundentemente que não existe mais a indústria jornalística e o modelo que insiste em nos rodear.

Obviamente, os exemplos trazidos pelo ensaio narram a realidade estadunidense, mas em grande parte pode ser aplicada ou articulada com o que se faz no Brasil. “Não há como preservar ou restaurar o jornalismo no formato prático ao longo dos últimos 50 anos”, pragmatizam os autores. Nada muito novo ou nenhuma surpresa até então, mas ainda na introdução do texto é disparada uma saraivada de balas contra o velho (e fadigado) modelo industrial do jornalismo tão exaltado e funcional do século XX.

O velho modelo centrado na rotina das redações, em que sistemas bem programados (e caros) definem a rotina, hierarquia e fluxo por onde a informação deve passar até que esteja “pronta” para ser consumida e distribuída, chegou ao fim. Muda o modo de consumir, o subsídio da publicidade perde espaço em todos os meios. “O bom jornalismo sempre foi subsidiado; o mercado nunca foi capaz de suprir o volume de informação que uma democracia exige.” A necessidade de impressão da notícia perde o fôlego. Meios de comunicação promovem a integração horizontal e “empacotam” no mesmo produto um grande volume de informações. Os autores não poupam energia quando falam: “Juntam num mesmo saco notícias relevantes e horóscopo, colunas sociais, receitas, esportes etc”. “Quem sintonizava um canal ou comprava uma determinada publicação para ler um artigo, seguia vendo ou lendo o que mais houvesse nesse “pacote” por pura inércia”, concluem os autores.

A internet acaba com a integração horizontal. É comum continuarmos a ver outros vídeos do mesmo autor ou tema quando passeamos pelo YouTube. O próprio sistema faz a indexação a partir de nossas escolhas. Além disso, quem refina a busca e dita para nós a qual vídeo assistir ou qual texto ler – e isso é uma tendência crescente – são nossos amigos de Facebook ou de Twitter. É uma teia orgânica e autogerada, que nos qualifica e nos fornece conteúdos de interesse o tempo todo, 24 horas por dia. É muito comum perceber leitores de jornais comprando seus diários e buscando diretamente seu artigo ou editoria de interesse. O restante do material, muitas vezes, ou será visto com um passar de olhos ou nem será aberto.

Os jornalistas, o que fazer com eles?

O texto discorre muito bem sobre a profissão e dá exemplos conclusivos sobre o enorme papel desse profissional. “Se há jornalistas, é porque o público precisa saber o que aconteceu e os motivos.” E conclui: “A maneira mais eficaz e confiável de transmitir uma notícia é por meio de gente com profundo conhecimento do assunto e capacidade de levar a informação ao público na hora certa”. Talvez por isso os grandes portais de comunicação, não apenas nos Estados Unidos, mas também no Brasil, têm convidado blogueiros a trazer seus blogs para dentro desses portais. É gente muito mais qualificada e capaz de escrever sobre um determinado assunto às vezes muito melhor que um jornalista generalista.

O ensaio conta a história que aconteceu com o blog Scotusblog.com e a CNN. Ambos cobriam uma importante votação na Suprema Corte dos EUA. Quando o veredito saiu, a CNN anunciou, por equívoco, exatamente o contrário do que foi anunciado pelo Scotusblog. O mais interessante é que os donos do blog, marido e mulher, não são jornalistas, mas cobrem esse assunto há 10 anos. Em menos de 10 minutos, a CNN se retratou, mas não impediu que 1,5 milhão de internautas conhecessem o Scotusblog e fizessem dele, a partir daí, uma confiável fonte de informação.

Continua…

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