Jornalismo disruptivo


(continuação do post anterior)

É público e notório que não somos mais passivos consumidores de informação. A notícia era algo que recebíamos, não algo que usávamos. Essa complexa teia com fluxo de informação constante e orgânica é onde vivemos hoje. Surge um novo ecossistema midiático e devemos considerar seriamente não apenas uma mudança profunda ou relocação de produtos jornalísticos como alguns pregam. Estamos longe do velho modelo enraizado no século 20 quanto à produção e distribuição de conteúdo. Os autores do texto O jornalismo pós-industrial são enfáticos: “As mudanças que estão por vir superarão as que já vimos, pois o envolvimento do cidadão deixará de ser um caso especial e virará o núcleo de nossa concepção de como o ecossistema jornalístico poderia e deveria funcionar”.  Mais do que isso, o texto avança com afirmativas bem duras e, porque não dizer, realistas. A internet não é um novo ator para o ecossistema jornalístico, é sim, o novo ecossistema.

Jornalismo disruptivo, ainda um sonho

Quando comecei a usar a palavra “disruptiva” em textos e palestras que ministro, as pessoas não ficavam muito contentes ou consideravam um certo “exagero” falar de disrupção no jornalismo. O tempo, senhor da verdade, vem mostrando que pensar em disrupção já não é tão absurdo assim. Mas o que quero dizer com isso? Disrupção em jornalismo nada mais é que mudar ou criar um ecossistema que ainda não existe ou é pouco aproveitado dentro das redações. Seria algo como transformar o jornal impresso em um pequeno produto da redação e dar energia e investimento aos portais ou à versão digital para tablets.

Muitos jornais vinculam seus jornalistas à rotina produtiva do jornal impresso. Com deadlines e fluxos de trabalho a partir dos horários definidos com a publicidade, circulação, impressão etc. A lógica disruptiva transformaria por completo o fluxo de trabalho nesses veículos. E porque não dizer, mudaria os horários da redação, destituindo um único e famigerado horário de fechamento. Um produto jornalístico hoje em dia não deve estar vinculado ao fechamento com ciclos diários de 24/7. A informação é orgânica e segue um fluxo, de certa forma, independente da vontade das empresas jornalísticas. “Essa divisão do processo em apuração, produção e publicação é, naturalmente, simplista, mas sintetiza a lógica básica da produção na imprensa“, completa o relatório. Colocamos os indivíduos em uma camada externa do processo de produção da notícia. Infelizmente, isso não se sustenta mais.

Foto
Sohaib Athar, de desconhecido a colaborador

Os principais acontecimentos dos últimos anos foram narrados, fotografados ou filmados por cidadãos comuns. A captura de Osama Bin Laden é um grande exemplo disso. Um desconhecido narrou via Twitter toda a operação do exército norte-americano no Paquistão. Sohaib Athar, até então um modesto consultor de TI, tem hoje mais de 62 mil seguidores no microblog. É muito provável que ele nunca mais consiga narrar um acontecimento espetacular como aquele, mas conseguiu atrair a atenção de toda a imprensa tradicional que, em outras circunstâncias, teria acesso apenas à informação oficial depois e quando o governo norte-americano a divulgasse.

Não estou aqui fazendo uma previsão apocalíptica sobre o jornalismo, nem tampouco a narrativa de seu fim, mas o ecossistema jornalístico que atravessamos imputa a nós, jornalistas do século 21, um novo olhar e uma atenção especial sobre o que está acontecendo. Audiências fragmentadas e instituições incapazes de reter e controlar o fluxo informacional oferece a nós, talvez, o maior desafio que a profissão já atravessou. Temos que concentrar esforços no sentido de buscar parcerias, pavimentar largos canais de relação com a audiência e buscar excelência a baixo custo. Para alguns, ainda mais difícil é falar em investimento em tempos de cortes nas redações.

Para finalizar esse post, algumas recomendações para os jornalistas que queiram sobreviver nesse novo ecossistema:

  1. Saiba quais são suas áreas de especialização.

  2. Você é um jornalista bom para entrevistar? Para apurar? É um jornalista “final cut”? Ou um jornalista Excel?

  3. Aprenda a diferença entre multidão e algoritmo.

  4. Saiba quando sua rede pode ajudar.

  5. Faça uma rede eficiente.

  6. Aprenda estatística e aprenda a ler dados.

  7. Aprenda que novos dispositivos exigem novos jeitos de contar histórias.

  8. Aprenda a editar vídeos.

  9. Saia da redação e visite as ruas.

  10. Não tenha vergonha de pedir ajuda a um blogueiro. Possivelmente ele sabe muito mais que você e isso não é vergonhoso.

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