E depois das manifestações?


Diante das inúmeras manifestações e do volume incontável de posts, vídeos e fotos sobre o ocorrido, fica muito difícil acrescentar algo novo sobre o que está acontecendo no país. Acho interessante destacar algumas publicações que tratam do assunto, além de um documentário da RTVE espanhola. O livro Multitudes inteligentes, de Howard Rheingold, de 2004, e A hora da geração digital, de Don Tapscott, de 2010, mostram de maneira clara a configuração das multidões (enxame) e o fim da hierarquia de poder dentro das manifestações.

Multidões inteligentes
Livros de Howard Rheingold e Don Tapscott ajudam a entender o fenômeno das ruas

Vários pontos interessantes acontecem nesse debate entre sociedade, imprensa e geração digital. Esse é o primeiro levante comandado por uma geração 100% conectada. Muitos dos jovens nunca haviam participado de outro evento semelhante e, por consequência disso, abusos e falta de foco foram registrados nos primeiros dias. O que é natural.

Na segunda-feira, dia 17 de junho, o secretário-geral da Presidência da República, o senhor Gilberto Carvalho deu declarações que enfatizam o despreparo do país para tratar do assunto. Ele esperava que as reivindicações dos manifestantes fossem postas à mesa para que pudessem ser negociadas, assim como sempre fizeram os partidos políticos e sindicatos.

Do ponto de vista dos manifestantes, acredito que esse ativismo irá evoluir no Brasil para intervenções artísticas, comunicação de guerrilha e formas criativas de mobilização e protesto. Esse vídeo (abaixo), produzido pela RTVE da Espanha tem vários exemplos que podem ser aplicados aqui. A maneira mais eficiente para atrair engajamento das pessoas é através do humor e dos cartazes criativos que estamos vendo surgir nas passeatas mostram a vocação brasileira. O novo sujeito criador é capaz de reconfigurar os espaços públicos em um palco de manifestações pacíficas por um bem comum. E já estamos contando vitórias.

 

A mídia é colocada à prova

A mídia, de modo geral, não estava preparada ou não acreditava que iria receber um volume tão grande de informações de fontes tão distintas. As discussões sobre jornalismo colaborativo, participativo e cidadão já foram devidamente discutidas tanto na academia quanto nas empresas jornalísticas durante todo o início do século 21.

O problema da mídia em relação aos fatos ocorridos se volta à necessária mudança de foco para observar que a multidão, enquanto gerador de conteúdo, é maior que as instituições tradicionais. As empresas não conseguem editar e distribuir o conteúdo com a mesma eficiência que fazem com seu modelo tradicional e bem pautado nas redações.

Na quinta-feira, dia 20 de junho, a GloboNews começou a mostrar, sistematicamente, os vídeos colaborativos – o olhar da manifestação pelos próprios manifestantes. O material não tem o “padrão Globo” de qualidade que estamos acostumados, mas é indiscutível que a questão está ligada muito mais ao registro e divulgação que à qualidade da imagem. O que acontece hoje com a cobertura jornalística no Brasil vai definitivamente reconfigurar a profissão. Será mais fácil observar a mídia e saber qual lado ela representa. As duas vias da informação devem conversar. A mídia tradicional não é mais capaz de acompanhar a velocidade dos fatos. Nas redes sociais ficamos mais expostos ao erro, mais próximos da notícia e mais susceptíveis a múltiplas visões e pouca consolidação dos fatos. Entra aí a imprensa experiente e separa o que de fato é notícia do que é apenas um post na multidão de dados.

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